segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A invenção dos ladrões

para Juju

Há muitos e muitos anos, num tempo em que não existiam países, nem nomes de países, nem princesas, reis ou passaportes, havia uma aldeia em que as pessoas viviam felizes pero contentas, brincando juntas e partilhando os alimentos e os boizinhos de chuchu que faziam com perfeição. Um belo dia (ou nem tão belo assim), um homem, que era pra lá de doido, resolveu fazer uma cerca em volta da cabana dele, juntou todos os alimentos que estavam ali em volta da cabana dele (ele não sabia fazer boizinhos de chuchu) e até umas roupas velhas que ele costumava usar, e disse que tudo aquilo, de agora em diante, era “dele, só dele”.

As outras pessoas não entenderam nada dessa história das coisas serem “dele, só dele”, pois elas viviam felizes pero contentas, brincando juntas e partilhando os alimentos e os boizinhos de chuchu que faziam com perfeição, e, portanto, não entendiam como uma coisa podia ser “dele, só dele”. Mas como o homem era pra lá de doido, elas acharam o comportamento estranho dele perfeitamente normal e seguiram suas vidas. O problema é que sempre que um alimento ia parar perto da cabana do homem pra lá de doido, ele botava esse  alimento junto dos outros e dizia que era “dele, só dele”. Até um boizinho de chuchu, que o homem pra lá de doido não sabia fazer mas estava dando sopa ali pelas imediações da cabana do malucão, acabou virando coisa “dele, só dele”.

A coisa começou a ficar séria quando mais da metade dos alimentos da aldeia acabou do lado de dentro da cerca do homem pra lá de doido. Ele, que era doido mas de bobo não tinha nada, se fartava de comer e comer, e começou a acontecer uma coisa diferente com as outras pessoas da aldeia: elas começaram a passar fome. Quando a situação chegou num ponto de dar dó, e as crianças choravam de falta do que comer (tiveram até que comer todos os boizinhos de chuchu, menos aquele que era do homem pra lá de doido), a aldeia reuniu o conselho de anciãos (que naquela época era formado por crianças dos 3 aos 303 anos), que resolveu enviar uma comissão (essa foi a invenção das comissões) pra conversar com o homem pra lá de doido.

Conversa dali e daqui, ficou acertado assim: todo alimento seria do homem pra lá de doido. Pra poder comer um pouquinho, a maioria das pessoas da aldeia teria que trabalhar (essa foi a invenção do trabalho) pro homem pra lá de doido, coletando os alimentos “dele”, limpando a cabana “dele”, lavando a privada “dele” (daí surge o nome “propriedade privada”), remendando a cerca “dele” e fazendo, com perfeição, boizinhos de chuchu “dele”. Uma minoria ia virar a polícia (essa foi a invenção da polícia) pra garantir que ninguém ia roubar merda nenhuma da propriedade privada do homem pra lá de doido.

Roubar? Sim, porque algumas pessoas da aldeia não tavam nem aí pra decisão da comissão formada pelo conselho de anciãos (que era formado por crianças de 3 a 303 anos) e preferiam continuar felizes pero contentas, e, quando era de noitinha e tava todo mundo dormindo, iam lá na cabana do homem pra lá de doido, furavam a cerca, pegavam um monte de comida e de boizinhos de chuchu, e ficavam comendo e brincando até o dia clarear.

Tavam inventados os ladrões!







domingo, 25 de setembro de 2011

Pra não dizer que não falei das torres

Beto Vianna

Procure uma data no Google. Vai encontrar rios de curiosidades, é claro, e você sempre irá botar significado maior ou menor em algumas delas, segundo suas próprias, particulares e cronometradas afeições. Mas é só comparar qualquer dessas datas com o tal 11/09 pra ver que tem alguma coisa estranha a respeito do tal 11/09. Ao contrário do 25 de abril, que só toca corações lusitanos (e o meu, que é desterrado), o 15 de maio, data-símbolo demasiado recente e demasiado espanhola, e até o 7 de setembro, que para arriba do Oiapoque e do Chuí abajo não passa de um 7 e de um setembro, o 11/09 quer de todo jeito ser universal. Quer virar marca. Luta pra isso, aliás.
Ilustração: Bira Dantas
A explicação mais rápida pra esse fetiche todo em torno do 11/09 (ou seja, da data em si, não do ocorrido na data) é o que Noam Chomsky chama de “mentalidade imperial”. É a cara-metade da “mentalidade colonial”, como o fenômeno é chamado na África: engolimos, sem resistência crítica, tudo o quanto seja fabricado na metrópole, de produtos manufaturados até conceitos, teorias sociológicas, e, porque não, datas comemorativas. Pois do lado de lá, a mesma imbecilidade impera. Meu pai adora lembrar que, nos EUA, o campeonato local de bentialtas é chamado World Series, e minha filha sempre se pergunta porque é que, nas internacionais salas de bate-papo, há internautas do México, do Gabão e da Irlanda, e, no entanto, outros são do Kansas, de LA (uma abreviatura!) e até do Wisconsin. Alguém tem lá de saber onde fica esse Wisconsin? É como chamar de “Universo” aquele terreno concurso de miss. Decerto porque essa baranguice teve início nos EUA (só pode) e lá já era alcunhado Miss Mundo, sobrando, para a fase mais planetária do concurso, o resto do cosmos.
Reis-na-barriga à parte, é preciso lembrar que (novamente bebo na fonte de Chomsky), a mentalidade imperial não se resume a bravatas megalomaníacas, a uma inofensiva síndrome de superman. A política externa dos EUA ativamente descompensa as balanças do direito internacional, tanto elevando à universal categoria de crime qualquer manifestação independentista em sua área de influência quanto, na direção oposta, diminuindo até à humilde invisibilidade os crimes cometidos pelo próprio Império. Como por exemplo, e por falar em 11/09, o assassinato de um tal Bin Laden.
É sobre um duplo pilar de absurdos que se assenta a glamurização do 11/09. De um lado a elevação, a proporções cataclísmicas, de um atentado em solo americano, desvalorizando um extenso histórico de ataques terroristas, golpes militares, massacres, invasões, bombardeios, desde o tenro século 19 até hoje: Filipinas, Dresden, Hiroshima, Coreia, a cubana Baía dos Porcos, Santiago do Chile, o Vietnã, a Granada caribenha, o Iraque. Nem vale a pena resumir a quilométrica lista. Todo essa sanguera espirrada fora dos EUA, e, o mais importante, pelos EUA. Não é irônico que a política externa norteamericana tenha se tornado mais estalinista que Stalin, nesse consequencialismo todo de “exportar a democracia”? De outro lado, e disso eu tenho ainda mais nojo, atrelada à valorização do 11/09 tem a campanha mais ou menos velada, pois tem muito do que se envergonhar, de demonização dos povos e das culturas árabes.
É curioso que essa data, a saber, o 11/09, tenha marcado eventos históricos bem mais impressionantes (se tivessem a Grande Mídia a seu lado), e mais esclarecedores (não fosse a mordaça da Grande Mídia) sobre essa nossa triste e antiga ladainha ocidental de, a um só tempo, esconder nossos crimes e inventar crimes pros outros.
Há uns 400 anos, Granada (a Granada espanhola) tinha a maior população de mouriscos (aqueles muçulmanos que, por força de uma força maior, se acristanaram) da Europa: 160 mil alminhas. A discriminação colocava em seu devido lugar, que é o lugar de baixo, um povo de cultura riquíssima, que escrevia espanhol em grafia árabe e falava um dialeto que ainda se pode entreouvir na voz andaluz. Ao lado das outras minorias igualmente marginalizadas pelo status quo cristão - os marranos judeus e os ciganos -, a mouriscada foi generosa o suficiente pra deixar de presente, pra nós, as delícias da arte e do folclore da Andaluzia e seu fruto mais saboroso: o flamenco. Pois a 11 de setembro de 1607, os paranóicos reis católicos, achando que essa gente diferente era uma ameaça à segurança nacional, decretaram sua expulsão de Valência, e logo de toda a Espanha.  
Ilustração: Bira Dantas
Em 11 de setembro de 1973, em um mundo que já reconhecemos como nosso semelhante, o mundo da comunicação de massa, das liberdades democráticas e da pílula anticoncepcional, era a vez de um governo democraticamente eleito tornar-se a ameaça à segurança nacional. Militares chilenos, apoiados pela CIA e bancados pelos mandarins do sistema produtivo e financeiro dos EUA, bombardeiam o palácio La Moneda, assassinam o presidente Salvador Allende e instauram uma ditadura truculenta, que deixou um legado de 30 mil mortos, torturados e desaparecidos.
E, então, é 11 de setembro de 2001. Um mundo já inteiramente nosso, o mundo midiatizado, globalizado e internetizado, assiste ao vivo e em cores o feio espetáculo de duas frondosas torres de aço se desmanchando no ar. Feio e triste. E tão feio e tão triste quanto 3 mil pessoas mortas pelos atentados é o acirramento da xenofobia, essa doença que pinta das piores cores os povos não-ocidentais. Os árabes, ou os muçulmanos, ou uma caricatura de ambos, transformam-se numa mistura improvável de fanáticos religiosos, degenerados morais e arquitetos diabólicos. Repetindo os reis espanhóis de quatro séculos atrás, o Ocidente torna a evitar o Oriente como o diabo foge da cruz. E nós, aqui no Brasil, esquecendo-nos que nossa formação cultural, étnica, e até emocional mais bebe nas raízes flamencas que nos nórdicos e louros senhores, esquecendo-nos que temos muito mais pés na África que fora dela, identificamo-nos com essa fantasia fora de tempo e de lugar. Ou, pelo menos, é o que a mídia imperial (de lá) e colonial (daqui), ansiosa por agradar seus patrões, quer nos fazer identificar.
Este mês é mês de 11 de setembro de 2011. Redondo aniversário de 10 anos, dizem alguns, do dia que tanto quer ser importante. Acho, ao contrário, que ligar o 11/09/11 àquele espetáculo sangrento em Nova York é injusto com a data. Prefiro pensar a data de outro modo. Lembrar que, neste ano, o ano repete o dia, com seus empinados “um e um”, suas duas torrezinhas ainda de pé. Ano em que povos árabes se levantaram contra seus regimes autoritários e farsantes, fantoches dos interesses externos na região. Ano em que os espanhóis do 15M soltaram seu grito em la calle, a la puerta del sol, desmascarando essa mesma democracia que (só por ser democracia) tem justificado tanto sangue e exploração. E ano interessante também pra nós, brasileiros, que de marcha em marcha - da maconha, das vagabundas, da liberdade - vamos renascendo para nossa dignidade há muito recolhida. E, se por mais não fosse, 11/09 é aniversário da mulher que eu amo. Devo então, tão somente, me alegrar com a data, derrubando duas torres com uma celebrada só.
 Publicado n'O Cometa Itabirano, 13/09/11

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fela por todos nós, pecadores

beto vianna 

Ah, mas esse texto aqui não é sobre música. Não é sobre afrobeat, mesmo que tanto “afro” quanto “beat” tenham espaço de sobra no texto. Faço a advertência porque tenho de admitir como é estranho falar de Fela Anikulapo-Kuti ignorando, até onde é possível ignorar, a importância gigante desse artista nigeriano pro universo musical contemporâneo. O caso é que, para alguns raros gênios da arte, compreender o lugar especial que ocupam no mundo exige, por mais parcial, pobre e perverso que isso possa parecer, contornarmos a genial expressão artística e nos concentrarmos na força motriz dessa genialidade. No caso de Fela, e bota força motriz nisso, o motor é rigorosamente político. Mais que isso, Fela Kuti é um tapa de mão aberta (ou um baita beijo de língua) naquilo que aprendemos, com os gregos, a chamar de política. O gostoso mérito da biografia Fela: esta vida puta, do cubano Carlos Moore, (lançada aqui no Brasil, e em Belo Horizonte, quase 30 anos após a versão original) é botar generosos pingos nos is políticos do artista. 
Política é, ou bem deveria ser, a arte de conversar, escolher e promover a satisfação da polis, o diversificado e heterogêneo conjunto de habitantes da “cidade” (no sentido mais amplo, mas mais particular, do local onde as pessoas vivem e celebram juntas a vida). Arte essa, além disso - se é para ser boa arte -, praticada pelos próprios beneficiários do fazer artístico. Essa definição de política passa bem longe, e de fato é o oposto, da principesca arte de “conquistar, manter e exercer” o poder, ou governo, sobre ou em nome das pessoas, como sugere Maquiavel e tantos outros. Como fiz em um outro artigo meu, publicado num desses jornalões mineiros, vou chamar aqui de política só a primeira acepção, e, a segunda, de “desamor”.
Voltando ao Fela. O cara nasceu Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti, da prestigiosa família Ransome-Kuti que inclui, entre outras sumidades culturais e políticas (ou desamorosas) nigerianas, o laureado Nobel em literatura Wole Soyinka, primo primeiro de Fela. Só que, para a gente iorubá, a gente de Fela, nome é um troço fundamental. Nós, neo-ocidentais, nos contentamos com os eternos mateuses, lucases, tomases e tiagos da Bíblia, ou nomes que “soam bem”, ou, se damos alguma trela pro significado, tascamos um nome hindu ou tupi-guarani, tão ao gosto de nossas hippices. Entre os iorubás, cerimônia das mais importantes, ombreando com o casamento e o enterro, é justamente a que dá nome à gurizada (me diverti muito, quando morava na Nigéria, indo a qualquer das três). O nome iorubá marca, acompanha e “faz” a pessoa pelo resto da vida e além. Em 1975, já metamorfoseado em borboleta libertária, Fela enterrou o sobrenome Ransome (que sabe lá Deus o que quer dizer), dado a seu avô, como “homenagem”, por um missionário cristão, e se rebatizou Anikulapo: aquele que traz a morte no bolso. E que morte é essa que Fela traz no bolso? Fela veio a este mundo dos vivos, o àiyé (leia “aiê”, descendo e subindo o tom), para matar o desamor, e, ouça o que eu digo, ele ainda vai conseguir, tenha ou não nosso herói morrido por conta da Aids em 97.

                                                                Arte: Arnaldo Stemberg

Outra sobre nomes: Fela Kuti nasceu duas vezes, cê acredita nisso? Eu acredito. Na biografia de Moore, Fela nos conta que a primeira vez que ele nasceu foi em 1935, batizado Hildegart. Esse menino, filho do pai e da mãe de Fela, viveu apenas duas semanas. E então Fela renasce em 1938, de nome, prenome e (depois) sobrenome iorubá. Fela acreditava piamente (e eu também) que ele tinha que ter morrido pra mostrar que não se dá a um iorubá, a um africano, a porcaria de um nome òyìnbó (leia “ôimbô”), um nome de branco, um nome colonial. E Fela tinha que renascer africano, africano não só pela Nigéria, ou por toda a África, mas pra matar o desamor em nós todos, brancos, pretos, amarelos e vermelhos. O cara veio ao mundo - e veio duas vezes - numa missão, sacou? E por falar em Nigéria, a última sobre nomes. O próprio nome Nigéria é emblemático na luta de Fela contra a mentalidade colonial. O Fela político, o Fela amoroso e panafricanista, sabia que um nome desses não tinha nada a ver com a África, que (diz ele na biografia) “… sem sacanagem, foi a esposa de um governante colonial que tirou essa palavra da cabeça ou de um chapéu” (Nigéria é corruptela de Niger area, área do rio Níger, que, por sua vez, vem de nigger, com toda a carga de racismo inglês incluída). E, no entanto, o nome é perversamente adequado, pois a Nigéria, tal como tantas outras “modernas nações” africanas, é uma sacana invenção neocolonial, separando gente que se sabe milenarmente inseparável, e juntando gente com incongruência também milenar.
Uma das muitas leituras medíocres que se faz de Fela é que o africanismo e o panafricanismo do artista, a sua deslumbrante e orgulhosamente expressa negritude, são atitudes unicamente direcionadas à questão da África, ou à causa das gentes pretas. Não é, não. Ao usar abertamente (e falar abertamente sobre) a maconha, ao desposar - em uma só cerimônia de casamento - 27 mulheres, ao rechear suas canções (não, não estou falando de música!) e declarações públicas com ofensas escabrosas às grandes potências, aos grandes líderes mundiais, às grandes corporações e aos covardes governantes africanos de mentalidade colonial, Fela está lançando um ataque massivo às bases dessa cultura desajeitada, desumana, desamorosa, que nós, ocidentais, vimos acochambrando nos últimos 500 anos. Pense, por exemplo, na poligamia de Fela, e como ela choca nossa cristã sensibilidade òyìnbó, e compare esse harém de mulheres independentes, inteligentes, respeitadas e corajosas com tantos casais ocidentais, hipocritamente estáveis, envergonhadamente machistas e ciumentamente monogâmicos que, principalmente nas classes médias e altas (os pobres sabem mais), mal concedem à mulher os papéis mais secundários e fúteis? 
Ainda estamos, timidamente, ao menos muitos de nós (e eu sei que agora o processo é irreversível), lutando pra fazer renascer esse “mundo África”, o mundo que, para Fela Kuti, é o mundo natural, o mundo óbvio do humano e do resto dos vivos. O mundo do corpo e o mundo da alma, e da celebração erótica de ambos. Se isso ainda é pecado, graças a Fela, já, já, vai deixar de ser.

publicado no Cometa Itabirano, julho de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pecados da língua


A onda de xenofobia anti-indígena que tomou conta do Brasil é compreensível. Nossas elites cultivam um nacionalismo peculiar, e volta e meia descobrem ameaças que servem na medida para propósitos bem menos dignos. Veja as defesas, à esquerda e à direita, da língua portuguesa, contra estrangeirismos de todo tipo. Agora, por exemplo, mobilizam-se forças e recursos para a reforma ortográfica que, argumenta-se, irá fortalecer nosso patrimônio na economia lingüística mundial.

Costumamos ser menos patriotas em relação às barreiras que estabelecemos dentro do próprio quintal. Segundo o último Ethnologue (o catálogo lingüístico internacional), falam-se no Brasil 200 línguas, o que, se não torna o país campeão em diversidade (é baixo o índice de falantes) dá-lhe um honroso 10º lugar em números brutos. São umas 180 línguas nativas (uns 150 mil falantes) e, pra não dizer que só falei dos índios, Libras, japonês, italiano e alemão são faladas, cada uma, por centenas de milhares de brasileiros. 


Acontece que, oficialmente, aqui só se fala o português, um desastre para quem, por conta disso, é dificultado o acesso a serviços públicos, jurídicos, e outras burocracias. Mesmo usuários do português sofrem com a política lingüística. Tente passar em um concurso público utilizando a expressão “nós vai”. Essa é uma forma corriqueira em muitas variantes do português do Brasil, mas falar assim é falar errado, e não adianta nós, lingüístas, batermos o pé (se é que nos importamos com o mundo real).

Preconceito oficial, sendo oficial, não é preconceito. Você pode parar na cadeia se discriminar alguém pela cor, religião ou preferência sexual, mas é perfeitamente admissível (e obrigatório, em muitos casos) penalizar um brasileiro que não utilize o “português padrão”, mesmo que a maioria da população não domine esse precioso idioma. É claro, você pode perguntar se a “variante” de que falo não é, simplesmente, fruto da má educação. Ao que só posso rebater com três incômodas contra-perguntas: a) em que norma divina está registrada a variante correta do português (para a utilizarmos, com tanto rigor, contra seus não-usuários)?; b) onde foram parar os ideais de universalização da educação, proclamados por nossa elite condutora, desde o Império?; c) se não vamos mesmo universalizar a educação formal (e seu filhote, o português padrão), sua alternativa, ou seja, a valorização das culturas locais, tão na moda, é só para inglês ver?

Apesar dos avanços nos últimos governos - menção honrosa para Lula -, a população pobre (que, sabemos, é a maioria) continua duplamente penalizada: recebe a pior educação e, de outro lado, é barrada nos salões privê do português correto (que, sabemos, é onde está o dinheiro). Nacionalismo e patriotismo seriam palavras melhores se significassem inclusão dos brasileiros de carne e osso que aqui vivem, tenham olhos puxados, cabelos pixaim ou gramáticas populares.


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Falar árabe, ouvir português

Texto publicado em 27/02/11 no caderno Mundo do jornal O TEMPO - editora Alexandra Martins

Problemas de transliteração (traduzir entre dois sistemas de escrita) são café pequeno perto dos atuais embates no norte da África e Oriente Médio, onde se luta para desalojar os respectivos ditadores. Mas a discussão é boa, se lembrarmos que as mídias e a internet, quase sempre com um componente escrito (mesmo a TV), têm sido atores importantes desses movimentos sociais. Ao lidar com outros sistemas de escrita - como o do chinês ou do árabe - a transliteração é um guia da pronúncia original, e pode afetar a qualidade da informação. 

Além disso, a gente esquece que escrita não é língua, mas uma técnica, vagamente precisa, de registro da língua (uma confusão que alimenta, no Brasil, o preconceito contra variações “populares” da fala). Assim, a transliteração tem que ter um pé na pronúncia original, e outro no ouvido do leitor, isto é, nas regras de escrita da língua do leitor. Isso também pode se tornar uma questão política.

É difícil achar cinco jornais brasileiros que concordem na grafia de Muammar al-Kadafi (ou Gaddafi, Qadhafi...). Tudo bem. Há diferenças consonantais no árabe sem correspondente gráfico no português, e decisões diferentes são válidas, se se mantiver a coerência interna. Recentemente, um repórter da Folha (24/02/2011) justificou o padrão do jornal pelo uso semelhante no “britânico Financial Times e pela rede Al Jazeera”. 

Mas, como se vê em “Jazeera”, nem sempre a grafia do inglês segue as nossas regras. Língua e escrita são moeda política, e é preciso consumir com cautela padrões vindos de cima, seja do país de origem (como a China e seu sistema pinyin) ou de potências do noticiário internacional.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

BRASIL BABEL E SUAS 40 E TANTAS LÍNGUAS

Não é preciso ouvir um dialeto de outro mundo pra não se entender uma só palavra. Eu, que sofro de quase surdez crônica, escuto quase tão bem em alemão quanto em português, ou seja, quase nada. Além daquilo que mora na fisiologia, podemos nos desentender por conta de incompatibilidades políticas, culturais, classistas, sexuais, o escambau. Já tentou conversar sobre o Fome Zero com seu vizinho tucano (ou vice-versa)? Ou sobre estética com aquela fã do Ivan Lins, se a sua onda é Beatles, como qualquer pessoa normal? Pra piorar, nem são bem os desencontros políticos, culturais ou de classe que impedem a interlocução bem-azeitada: é nossa disposição de não-conversar que sai rompendo, logo de cara, qualquer chance de entendimento. É dentro da própria linguagem que decidimos que não vamos escutar o que o outro diz, não por culpa de sistemas simbólicos previamente incompatíveis.

Não adianta tirar o cujo da reta e responsabilizar uma dificuldade “de língua” (ou de política, ou de cultura, ou de classe): essa bola sempre esteve mesmo com a gente. O diabo é a tal da nossa racionalidade arroz-à-grega, cristiana e western. Uma dessas invenções de nossa sapiência ocidental é o caráter “arbitrário” do signo lingüístico, ou seja, não há uma razão cósmica para dizermos isso em vez daquilo. Digo “vaca”, olhando para uma bovina e fêmea criatura, mas faço-o por mera convenção social, tanto que nos EUA dizem lá eles “cow”, apontando para a mesma senhora. O problema dessa lógica impecável é que faz diferença, sim, escolhermos dizer aquilo que dizemos e do jeito que dizemos. Foi o que George Orwell mostrou em 1984. A novilíngua orwelliana, bem mais realista que aquela pintada pelo establishment científico, é política. Ela diz, desdiz e re-diz, desfazendo ou re-fazendo o mundo que vivemos nessa mesma língua. Dito isso, não há nada mais velhaco da parte de um governo que proibir um vivente de usar a própria língua dentro da própria comunidade. E, por incrível que pareça, essa não é uma excentricidade sadô-fascista, mas a norma em sociedades re-ditas democráticas.


Pegue, por exemplo (escolhi o país ao acaso), o Brasil. Segundo a Constituição Federal, a língua e única língua oficial do Brasil é o português (/pohtu`ges/, para os fonéticos), significando que em repartições públicas, escolas públicas e banheiros públicos essa é a língua que você se arrisca a encontrar e um estrangeiro faria bem em aprender, pra não entrar num ladies achando que era um gentlemen. Oficialmente - é preciso frisar: oficialmente - o Brasil é um país monolingüe, e fim de papo. Fim de papo principalmente para os milhares de brasileiros que não falam o tal do português, e assim são privados de acesso às engrenagens da máquina pública, em suas mais sutis manifestações. Não estou com frescura de “preservação cultural”, falo de situações palpáveis e assustadoras. É no dia-a-dia que as pessoas vivem suas línguas, conhecendo, namorando, brigando, trabalhando, comendo e até dormindo, mas os donos do mundo sabem acabar com a festa numa penada.

O Brasil viveu e ainda vive a prática de se enfiar o bocejante monolingüismo goela abaixo de nossa vox populi. A primeira foi a disseminação das línguas gerais, baseadas em duas ou três línguas Tupi-Guarani do litoral brasileiro. Anchieta não foi culpado (sozinho), mas foi, sem dúvida, seu mais conhecido divulgador, escrevendo a Arte de gramatica da língoa mais usada na costa do Brasil, em 1595 (esse processo de gramaticização das línguas européias e não-européias alimentou dois fenômenos interligados da história humana: o conhecimento como forma de dominação e a instituição das ciências da linguagem, por mais que os lingüistas insistam que sua ciência nada faz ou fez além de “descrever fatos” da língua).

No processo de “entradas” pelo interior do país, foderam-se as índias e pariram-se falantes de língua geral, inclusive entre índios de falares totalmente distintos. Esses eram “tapuias”, bárbaros na novilíngua segregacionista brasílica: tupi or not-tupi. Minas Gerais foi desfraldada por faladores da língua geral paulista, e hoje sonhamos, pelos nomes de nossas geografias, que o tupi era a mui querida língua dos nativos daqui. Não era. Depois veio Marquês de Pombal e, mais cioso da língua da terrinha, deu o golpe final no palavrório selvagem: o alvo agora era o próprio tupi, atingindo, de quebra, os jesuítas e paulistas que o haviam disseminado. Há mais de 200 anos Pombal decretou que no Brasil fala-se, pois, o português, decreto que, como sabemos, sobrevive até hoje em nossa progressista Carta Magna.

Ao furacão pombalino sobreviveu uma língua geral, a amazônica. O nheengatu hoje é uma realidade para uns tantos povos amazonenses. Língua materna dos caboclos, língua de comunicação entre índios e cara-pálidas, entre índios de diferentes línguas, e peça de resistência dos índios que foram surrupiados de suas falas originais, como os Baré do Alto Rio Negro, que viviam uma língua aruak. Por sua vez, várias línguas indígenas, tupi or not, sobreviveram às línguas gerais. Há ainda no Brasil umas 180 línguas indígenas para uns 300 mil falantes, muitos deles vivendo a vida toda como estrangeiros em português, sem nunca terem deixado a própria terra.

O Paraguai abriga - oficialmente, ao lado do espanhol - sete milhões de pessoas que vivem suas vidas em guarani, a língua geral dali. Aqui a distribuição é mais desigual, desde as dezenas de milhares de falantes do guarani, do terena, e das línguas dos Yanomami, até o mínimo possível de um solitário falante. Entre um extremo e outro, o usual são línguas como o maxacali e seu milhar de usuários em Minas, povo que há centenas de anos insiste em conversar do seu próprio jeito, a despeito da surdez das leis em português. Esse é o quadro de um país de baixas concentrações de gente por língua, e ainda assim, campeão em diversidade lingüística, que é o resultado natural dos dentes institucionais cravados na jugular linguajeira de milhares de pessoas.

São Gabriel da Cachoeira é um dos maiores municípios do Brasil, mais de uma centena de quilômetros quadrados (maior que Santa Catarina) pra 35 mil alminhas, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. A esmagadora maioria dos são-gabrielenses ou têm o português como segunda língua ou nem entendem esse idioma. Ali você encontra, em compensação, falantes do nheengatu, do tukano e do baniwa. Apenas ontem, em novembro de 2006, esses falares foram reconhecidos como línguas oficiais de São Gabriel ao lado do português. Com a regulamentação, toda repartição pública é obrigada a atender nas quatro línguas, e campanhas publicitárias institucionais têm que ter a versão no quarteto (com a vantagem adicional de manter os marqueteiros, proficientes apenas em paulistano, longe desse mercado). A prefeitura tem de incentivar o uso dessas línguas nas escolas, nos meios de comunicação e nas instituições privadas, uma flecha envenenada bem no coração do padrão Bonner-Bernardes de comunicação.

Nem só de nativo-americanos vivem as muitas línguas brasileiras. Andando por aí você vai topar com o lancpatuá (crioulo do Amapá, baseado no francês), o talian (de estirpe vêneta, falado nas serras gaúchas), o Riograndenser Hunsrückisch (que tem pérolas como “Mariechen, mach die janela zu, es chuvt!” - tente traduzir), e os falares afrobrasileiros batucados por dezenas de comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil, frutos de uma história ao mesmo tempo feia e bonita, a gente sabe qual. Menção honrosa pra gira da Tabatinga, falar de origem bantu, ainda praticada na cidade de Bom Despacho. Até o inglês deixou marcas, graças à exploração do minério mineiro. Em Nova Lima ainda é possível ouvir um português britanizado por termos como “shauva” (ou algo parecido), por “pá”. E há o movimento oposto, de resistência ao anglicismo invasor: em Itabirito os trabalhadores das minas inventaram a “guinlagem camaco”, que troca as consoantes iniciais da primeira com as da segunda sílaba (por aí, tente traduzir o nome da língua).

Not least, o Brasil vive uma enormidade de dialetos do português, e nem assim são reconhecidos, pois amargam uma história de marginalização pela classe senhorial como língua corrompida, desleixada e por aí vai. Já ouviu falar nos dialeto caipira? Eu, i pussivelmenti ocê, falamu uma varianti deis, mas isso só é aceitado nos iscrito pós-moderno e nas revistinha do Chico Bento. No mais, é falar errado, que os doutos guardiões da inculta e bela só recomendam com cautela poética aos que trilham as primeiras letras. Êita.

Os dialetos surdo-mudos - as línguas de sinais - são considerados, por muita gente sabida, uma prótese lingüística, um Audisom receitado para quem sofre de não-língua. Óbvio, não é o caso. Não-surdos devem ter experiências inimaginadas pelos surdos no exercer de suas línguas, e vice-versa, mas o fazer-junto da língua é plenamente realizado em qualquer modalidade. Ou seja, os surdo-mudos realizam-se como comunidade humana na linguagem de sinais, e impedir essas pessoas de exercer sua lingua oficialmente é pura sacanagem. A Libras, língua de sinais dominante no Brasil, deu curtos passos nos governos FHC-Lula. A lei de 2002 é tímida (e tem um final esquisito: a Libras “não poderá substituir a modalidade escrita da língua portuguesa”. Haverá aí algum librasiano subversivo desenhando mãozinhas?) e o decreto sob Lula vai pouco além de mandar as repartições “garantir atendimento e tratamento adequado aos portadores de deficiência auditiva”. Se acha que é implicância minha, pergunte (se puder) a um falante da língua de sinais neo-zelandesa o que ele achou de seu país oficializar a NZSL, ao lado da indígena maori e da novata inglesa. A lei da Nova Zelândia, primeira no planeta, só passou em abril de 2006, o que mostra em que pé ainda estamos.

Costumamos pensar que “surdo-mudo” é uma daquelas categorias necessárias, pois, afinal, está no domínio da fisiologia, e não da cultura. Ou bem se escuta ou bem senão. Bom, nem todo mundo pensa-fala assim. No Maranhão vivem os Urubu-Ka´apor, que falam, além do ka´apor (que é tupi-guarani), uma língua de sinais. Um em cada 75 desses índios nasce surdo, e surdo pelos nossos padrões, pois ali esse vivente é considerado monolíngüe, em oposição ao restante da tribo. Esses são bilingües, e todos, crianças e tudo o mais, sinalizam com os mono-falantes (chamemos assim) e inclusive com índios de tribos vizinhas não-falantes de ka´apor, usando a sinalização como um tipo de língua geral.

Termino este babélico artigo com os Urubu-Ka´apor pois acho que aí há uma pequena mas apetitosa lição. Os surdos desse povo não são surdos em absoluto, e por um largo motivo: eles têm a sua língua plenamente reconhecida, e até amplamente conhecida, pelo restante da comunidade. É isso que distingue o ouvir em ka´apor do não-ouvir em português, pois toda diferença tem que fazer uma diferença na prática. Devíamos pensar-falar nisso toda vez que nos perguntamos que diferença faz usar uma língua ou outra, dizer isso em vez daquilo, dizer desse ou daquele modo, na vida das pessoas. Na prática.

Publicado em O Cometa Itabirano, fevereiro de 2007